terça-feira, 15 de julho de 2014

INDEPENDENCE DAY - NOVA IORQUE

 
Há dias, mais precisamente a 4 de Julho, os Estados Unidos comemoraram o seu Dia da Independência.
Pois vamos falar um pouco sobre o lado de lá do Atlântico, mais concretamente sobre uma das mais fascinantes cidades do Mundo : Nova Iorque.
E para abordá-la, vamos sair do aeroporto até Brooklin e, aí, atravessar a pé a mítica e histórica Brooklin Bridge, inaugurada em 1883, que atravessa o East River e que, calcorreada com calma, admirando a paisagem em frente, nos faz sonhar...
("Just over The Brooklin Bridge" - Art Garfunkel)

Chegados à outra margem, estamos em Manhattan, um dos 5 "boroughs" (ou distritos, para simplificar), que compõem Nova Iorque: Manhattan, Brooklin, Bronx, Queens e Staten Island.
Perto do local onde deixámos a ponte, encontra-se o edifício da Câmara Municipal, que pode ser visitado, desde que haja marcação prévia.
Percorrer Nova Iorque é extremamente simples: para Norte, Uptown, para Sul, Downtown, adoptando a localização do Central Park como referência. As avenidas foram desenhadas na vertical, as ruas na horizontal (West e East, ainda tendo como referência o Park). É quase impossível alguém perder-se nessa malha ortogonal. A excepção é a Broadway, que atravessa a cidade na diagonal, e desde 1811.
A rede de metro é eficiente, assim como a dos autocarros e, atendendo ao actual valor do euro, as viagens de táxi, para grupos de 2/4 pessoas é aconselhável e barato.
Voltando à Câmara Municipal, podemos ir "downtown", pela Broadway, passando pelo memorial do 11 de Setembro e pelo novo arranha-céus entretanto construído, metendo o nariz em Wall Street, que recorda o local onde, em 1652, os holandeses construíram um muro de lama e madeira para impedir fugas de escravos. Wall Street, hoje, invoca outro tipo de escravatura e outros senhores...
A poucos metros, temos a Trinity Church que, além de um cemitério datado desde o século XVII, abriga recordações vivas e vividas da tragédia de 11 de Setembro.
No fim da avenida, pode-se apreciar o Battery Park, datado do século XIX, onde se situa o Forte Clinton (sem sala oval...) do mesmo século, admirando-se, ainda, uma esfera metálica, antes situada entre as Torres Gémeas, e que é testemunha física do que lhe desabou em cima.
 
(A esfera no Battery Park)

Do Battery Park saem os ferries que, além do mais, asseguram as ligações à Estátua da Liberdade e a Ellis Island, onde se situa o Museu da Emigração.
E, já agora, porque não um pequeno cruzeiro pelo Hudson ou pelo East River? 
Deixando o Battery, vamos Uptown e East, percorrendo Canal Street, onde se contempla um incrível mercado ao ar livre, e no qual se podem adquirir frutas, vegetais, mariscos, peixes, ou não estivessemos no coração de ChinaTown, bairro que merece ser calcorreado, mas com atenção aos restaurantes, que não se aconselham.
Mas não se perde pela demora. "Entalada" em ChinaTown, está Little Italy, que já teve uma dimensão maior, mas que hoje se confina aos três quarteirões que ladeiam Mulberry Street, e parece aproximar-se da extinção. Aproveitar a oferta de restauração e, porque não, naquela rua tão italiana, imaginar Don Corleone ("O Padrinho") aos tiros. Ou seria Marlon Brando?
Se, agora, nos dirigirmos para ocidente (Go West...), vamos encontrar alguns bairros que nos fazem lembrar algumas zonas de Londres (como Soho, que apenas quer dizer SOuth of HOuston street), calmas, habitacionais, como são Tribeca (TRIangle BElow CAnal street), o referido Soho e Greenwich Village,  este último local privilegiado das comunidades gays e lésbicas, e onde as estátuas da Christopher Square evocam, também, para além da tolerância cívica, os incidentes de 1969 no bar Stonewall Inn,  quando a polícia espancou manifestantes que lutavam pelos direitos civis dessa comunidade, direitos iguaizinhos aos nossos. Ali não há preconceitos e respira-se uma atmosfera carregada de liberdade. E cultura.
Os três bairros foram, nos anos 50/60, residência de pintores, escultores, músicos, cantores, actores, realizadores (a norte fica a Union Square, onde esteve The Factory, o estúdio de Andy Warhol e dos seus discípulos), tendo, depois, caído na degradação e quase votados ao abandono.
No entanto, foram revitalizados, recuperados, e são hoje, mantendo as suas identidades físicas e ambientais, residência de uma jovem classe média, maioritariamente de profissões liberais, dinâmica e culta. Bons restaurantes, galerias de arte, livrarias, óptimas lojas de música, onde se podem adquirir verdadeiras raridades em CD ou...vinil. O espírito de Nova Iorque.


 
("Empire State of Mind" - Alicia Keys)

Deixando para trás estes odores, sabores e panoramas, vamos Uptown, seguindo a famosa 5ª. Avenida, passando pelo Madison Square Garden, paredes meias com o mundialmente famoso pavilhão com o mesmo nome, casa da equipa de basquetebol do New York Knicks, e pelo Flatiron Building, assim chamado por se assemelhar a um gigantesco ferro de engomar. Foi um dos primeiros arranha-céus da cidade.
Na 5ª., tempo para visitar um dos templos da cultura, a livraria Barnes & Noble. Desde os últimos êxitos, até velhos alfarrábios, literatura técnica, de tudo há na Barnes. E, vantagem não desprezível, envio ao domicílio, para qualquer parte do mundo, sem falhas e com rigor.
E, pouco depois, estamos frente dele. O símbolo por excelência de Nova Iorque, o mítico Empire State Building, que um gorila chamado King Kong, transfigurado de Prometeu, subiu até ao topo da imortalidade.
Andando mais um pouco, chegamos ao elegante Bryant Park. Indo à direita, pela Rua 42 East, chegamos a outro dos ícones da "Big Apple", uma estação de comboios que dá pelo nome de Grand Central Terminal, e que é um esplendor arquitectónico.Por ali também se filmaram cenas de Hitchcock ("Intriga Internacional"), de Terry Gilliam ("Fisher King"), viram-se Will Smith e Tommy Lee Jones ("Men In Black") e, até, desenhos animados da DreamWorks ("Madagáscar"). Estamos perante mais do que uma vulgar estação. É um monumento vivo.
Galgando mais um pouco a Avenida, chegamos ao complexo do Rockefeller Center, ao qual pertence um dos maiores auditórios de música em todo o mundo, o Radio City Music Hall. Sob a estátua de Prometeu, abre-se um vasto recinto de esplanadas (no Verão), onde o preço não se pode considerar exagearado, transformado em rinque de patinagem no Inverno, e que acolhe, na época própria, uma das maiores e mais bem iluminadas árvores de Natal do Mundo. De destacar que a decoração interior do espaço, acessível a visitas com marcação, foi da responsabilidade do grande pintor e escultor mexicano Diego de Rivera. Uma estátua de Atlas, pertencente ao complexo, está alinhada com a Catedral de São Patrício, no passeio em frente, de estilo neogótico. Mas aqui, francamente, parecem faltar 700 anos de História, que nunca será capaz de ter.
Voltemos um pouco para trás, no passeio por onde viemos, passe-se  o Bryant Park, agora na Rua 42 Oeste, e desembocamos no Centro do Mundo: Times Square, uma praça pequena, mas repleta de lojas, pessoas, táxis, cores, sons, lojas, os principais teatros ao redor da Broadway, e mais pessoas, e mais cores, todas as línguas do mundo, praça viva e cheia de vida, onde a beleza não está na arquitectura, mas em cada e todas as "desvairadas  gentes" de todas as partes e continentes. E a loja de chocolates "Hershey´s", claro. E, ao jantar, na Rua 49, Oeste, "The Playwright". E mais, e mais. O mundo na palma da mão. Um dos locais mais espectaculares que nos é dado apreciar e gozar.
 
Se houvesse dúvidas, estamos, de facto, em Nova Iorque.
("New York, New York" - Frank Sinatra) 

E se ainda tivermos forças, depois de exauridos em Times Square, continue a subir-se a Avenida e, cuidado, que para tal é preciso tempo, atenção, concentração. No 11 da Rua 53 Oeste, está uma das grandes apostas culturais da cidade: o Museum Of Modern Art, o M.O.M.A. A ver, especialmente para os interessados na arte dos séculos XX e XXI: pintura, escultura, desenho, fotografia, arquitectura, design, filme, performance, novas tecnologias aplicadas à expressão artística.
Quase no fim da Avenida, pouco antes de se atingir o Central Park, temos, na esquina da Rua 57, Este, a famosa joalharia Tiffany's, a cuja porta Audrey Hepburn ia tomar o pequeno-almoço ("Breakfast at Tiffany's", filme de 1961, de Blake Edwards), e onde as peças não têm preços à vista. No lado Oeste da mesma rua, na esquina com a 7ª. Avenida, aprecia-se o edifício da mítica sala de espectáculos Carnegie Hall, que já viu Leonard Bernstein e Mariza.
Na esquina em frente, no pub de artistas "P.J. Carney's" saboreia-se uma inesquecível Shepherd's Pie e viram-se bejecas de todas as marcas imagináveis.
E chegamos ao Park.
Desde já, para quem aprecia museus, recomendam-se vivamente dois, situados em cada um dos lados do parque: do lado Este, o Metropolitan Museum of Art, excelente acervo de obras que abrangem séculos que vão do Antigo Egipto, a Andy Warhol e Jackson Pollock. Particular atenção à extensa colecção de quadros de Van Gogh. Um pouco acima, do lado direito da 5ª. Avenida, está o Museu Guggenheim, que alberga a colecção de Solomon Guggenheim mas que, para além do mais, se destaca pela disposição das obras como se estivessemos a descer uma escada em caracol, e a arquitectura original do edifício, da autoria do célebre arquitecto Frank Lloyd Wright.
(Museu Guggenheim)

Do lado Oeste temos o Museu de História Natural, merecendo destaque o acervo museológico sobre os nativos americanos, vulgarmente conhecidos por índios.
E, num parque, porque não almoçar uma refeição tipicamente americana e novaiorquina? Muito simplesmente um Hot Dog (cachorro quente) comprado a um vendedor ambulante, dos muitos que existem na cidade. Obrigatório. E higiene assegurada.
O Park deve ser percorrido devagar, em jeito de calma passeata, admirando as alamedas, estátuas, jardins, lagos, até o Zoo, para quem apreciar, e que foi retratado no filme "Madagáscar", já que aí residiam as personagens principais da história, e o Delacorte Theatre onde, "à borla" se podem admirar peças de Shakespeare (vd. as personagens de diversas das suas peças em estátuas alusivas), enquadrado pelo castelo Belvedere. Para além disto, o teatro também oferece todo o tipo de repertório, incluindo musicais, que não são exclusivo dos teatros da Broadway.
Por razões sentimentais, recomenda-se "peregrinação" aos Strawberry Fields, zona ajardinada junto à Rua 72, Oeste, que homenageia John Lennon, e segundo projecto da Câmara Municipal e de Yoko Ono, viúva do ex-Beatle, que ainda reside no edifício fronteiro ao parque, o Dakota Apartments, à porta do qual John foi assassinado. O jardim recebeu espécies vegetais de mais de 100 países, incluindo Portugal. 
Local próprio para recordar, meditar e ouvir música dos Beatles, interpretada por alguns dos inúmeros músicos amadores que calcorreiam o Park. Sugere-se que sejam escutados muitos deles, interpretando rock, folk, baldas e, claro, muito jazz.
(Mosaico "Imagine", do título da canção homónima de Lennon, no Strawberry Fields, em estilo da Calçada Portuguesa)

E já que estamos falando de música, um pouco abaixo da rua do Dakota, e para o lado Oeste, entre as 62ª e 66ª, e encostado à Broadway, encontramos o Lincoln Center for the Performing Arts, ou apenas Lincoln Center, um dos mais extraordinários centros culturais do Mundo, inaugurado em 1962. Alberga, entre outras, a Metropolitan Opera House, o New York City Ballet, a Orquestra Sinfónica de Nova Iorque e a Julliard School, onde se ministram cursos de dança, música, coreografia, representação (que a velha série televisiva "Fame" terá tentado homenagear).
O equilíbrio das formas, a valia arquitectónica do local merecem demorada visita e, se possível, o milagre de arranjar bilhetes para qualquer espectáculo. Por exemplo, a versão novaiorquina de "Romeu e Julieta", não a disputa entre Capuletos e Montecchios, mas entre os grupos de adolescentes Jets, anglo-saxónicos e Sharks, hispânicos, e que ainda hoje enche salas, com coreografia de Jerome Robbins e música de Leonard Bernstein, e que passou para a posteridade com o título de "West Side Story".

("West Side Story" - Prólogo)

Voltando ao Central Park, a caminhada leva-nos mais para Norte, passando pelo lago maior, denominado Jacqueline Kennedy Onassis Reservoir, e chega-se à saída contornando outro lago, o Harlem Meer.
Deixamos à esquerda a Universidade de Columbia e estamos à beira do Harlem, e o contraste com a cidade "branca" é visível. O estigma do racismo ainda não desapareceu, apesar dos progressos realizados em Nova Iorque. 
Aos que apreciem a música gospel, sugere-se, um domingo pela manhã, cedo (8/8.30), a presença, engrossando a bicha, junto aos números 140/148 da Rua 137 Oeste, onde se situa a African Methodist Episcopal Zion Church. Convém, de facto, madrugar, já que são mais os turistas que os fiéis. Mas não é preciso entrar em pânico, já que virando a esquina, na Rua 136, está situado outro templo onde, sem empurrões, se podem ouvir coro e solistas de qualidade. Às vezes, nem tudo o que vem nos guias turísticos é de seguir à letra...
E, já que estamos no Harlem, porque não dedicar uma noite à música que Nova Iorque acolheu como sua e divulgou pelo Mundo? Jazz claro, e arriscar uma mesa nos míticos Apollo Theatre ou Cotton Club, renascidos e renovados. Lembrar Charlie Parker, Duke Ellington, Bessie Smith, Charlie Haden , Billie Holliday, Miles Davis ou Charlie Parker, o "Bird" do exemplar filme homónimo de Clint Eastwood.
E por falar em filmes, e em jazz, recorda-se uma das grandes obras sobre Nova Iorque, um dos melhores filmes de sempre, e a impressiva banda sonora, a ultima da grande carreira de Bernard Herrmann.
(Tema de "Taxi Driver" - soa a Nova Iorque)

O texto já vai longo, mas o 4 de Julho deu o pretexto para falar sobre esta cidade mágica e, se possível, aguçar o apetite para uma visita que, e é uma opinião pessoal, se torna obrigatória. Não mergulhar nesta metrópole fascinante é pecado capital. Pelo menos uma vez antes de se viajar sabe-se lá para onde...
Na internet, a busca é fácil, podendo consultar-se, entre outros:
www.newyorkpass.com/, www.nyc-arts.org/, www.nycgo.com, www.timeout.com/newyork/attractions-days-out/new-york-attractions, www.nycgo.com/must-see-nyc/   
Para o viajante curioso, que privilegia as gentes à pedra, deixa-se a eterna dica de que, apesar de tudo, não será de seguir tudo aquilo que guias e sites nos querem vender, O instinto explorador sabe sempre orientar-nos.
Deixamos Nova Iorque, por agora.
Para despedida, um chamado postal de viagens que alia a visão sobre a cidade deixada pelo génio de Woody Allen, no filme "Manhattan" de 1979, à música que, também como opinião pessoal, é o verdadeiro hino e o vivido e colorido som de Nova Iorque: "Rhapsody in Blue" do génio George Gershwin.

 

 
 

          

sábado, 12 de julho de 2014

PIRES DE LIMA - TRIBUNAIS? SÓ PLENÁRIOS!



"Se o país achar que não é possível cumprir os compromissos com esta Constituição, sujeito à incerteza constitucional, o que tem de ser tem muita força”

“Vamos ter de ter um Governo de maioria depois das eleições. E não acredito que nenhum aceite governar no estado de submissão aos tribunais que este aceitou

As frases acima transcritas não foram proferidas por Marine LePen.
Ou por alguém da Aurora Dourada grega ou da escumalha neo-nazi.
São da autoria de Pires de Lima, Ministro de Estado e da Economia.
Do actual Governo de Portugal.
Com o silêncio tácito do Sr. Primeiro-Ministro,
E do Sr. Presidente da República,
E do Sr. António José Seguro,
E, já agora, da oposição em bloco,
Entretidos que andam todos com a telenovela do BES.
Mas as palavras de Pires de Lima são mais perigosas que todos os BES, GES e afins.
No fundo das mesmas está uma incompatibilidade visceral.
Contra a Constituição da República,
Contra o regime democrático saído do 25 de Abri,
Contra a democracia, ela própria.
No governo está gente
Que não aceita nem respeita a Constituição,
Que não aceita o primado da Lei e as decisões dos Tribunais,
Que renega a separação de poderes, entre o executivo, o legislativo e o judicial,
Separação que é matriz da Democracia.
Que, bem no seu fundo ideológico,
Recusa que o Governo possa ser escrutinado pelo Parlamento,
E julgado por quem deve aplicar a Lei.
Que, bem no fundo, desejaria que os juízes não fossem independentes,
Paus mandados acéfalos, obedecendo ao "espírito" do Governo,
Tão cegos como os cegos de Pieter Bruegel,
A quem se ditam sentenças sem julgamento,
Como nos tribunais plenários.
Só falta dar uns "safanões a tempo" a quem se oponha à ideologia Governamental.
Este gente é perigosa.
É, de facto, urgente acordar.
E, em plenário das gentes deste país, dar-lhes uns safanões!
 
("A Parábola dos Cegos", de Pieter Bruegel, o Velho. É assim que "eles" querem a Justiça?)  
 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

MEU BRASIL BRASILEIRO : VINICIUS DE MORAES

 
Pois é, meu querido Vinicius de Moraes, estavas tu descansado da vida, aí no Olimpo dos Artistas, com o teu whiskinho na mão, em bate-papo com o Tom Jobim e a Elis, talvez na companhia do grande médio e médico, o Dr. Sócrates, e do Mané Garrincha, esse génio de pernas tortas.
E tu Vinicius, poeta, embaixador, amante da vida, do amor, das mulheres e, como bom brasileiro, do futebol, lá estavas para assistir ao jogo, no telão do céu.
Mas tu amas é o futebol brasileiro de verdade, verdadeiro, do jogar à bola.
Do Brasil do Didi, do Pélé, do Garrincha, do Sócrates, do Falcão, do Zico, do Bebeto, do Romário, do Ronaldo e do Ronaldinho Gaúcho.
Lembras-te, amigo, até fizeste um poema ao imortal Mané Garrincha:

 O ANJO DE PERNAS TORTAS

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
 
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!
 
Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
 
Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!   
 
E recordas, saudoso aquela que, aqui para nós, foi a melhor equipa de futebol de todos os tempos, o Brasil campeão do Mundo em 1970:
Félix, o guarda-redes, ou goleiro, naqueles tempos tinha de haver alguém....; os defesas, ou zagueiros, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo; os médios, Clodoaldo, Gerson e Rivelino; e os avançados, Jairzinho, Tostão e Pélé.
Pois era, caro Vinicius eles foram um poema, uma sinfonia, uma orquestra em cima do relvado, do  gramado, com se diz nesse Português com açúcar (nosso mestre Eça de Queirós...).
Lembras-te?

(Final do Mundial de 1970: Brasil 4, Itália 1)

Ai Vinicius, o samba combinava com a bola, e era tudo tão natural, sem regra, esquadro e folhas de excel.
Com talento, criatividade, sem tácticas e preconceitos de Parreiras ou Filipões.
Até o futebol virava canção:

("O Futebol" - Chico Buarque de Hollanda)

Pois é, poeta, ontem, aí no teu Olimpo, viste um Brasil adulterado, e uma tropa alemã a sambar como o Brasil. As voltas que o mundo dá, não é meu poeta?
Olha, conforta aí o Tom, a Elis, o Mané, o Dr. Sócrates, o Didi, vocês estão acima daquilo tudo, tal como o futebol que joga à bola. Afinal, é só pontapé....
Recita os teus poemas, lê os teus escritos, e canta as tuas canções.
E deita as tristezas para trás das costas.
Amanhã é outro dia, e o teu Brasil é muito mais que uma Copa!
Saravá!

   
  ("Felicidade" - Vinicius, Tom Jobim, Tóquinho e Miúcha)

terça-feira, 8 de julho de 2014

TERRORISTA EM LISBOA : FINALMENTE!

Detido suspeito de terrorismo no aeroporto de Lisboa  (Diário Notícias - 6/07/2014)

A notícia acima transcrita revela um comportamento disfuncional.

"Deter" um "suspeito?

Holandês? Alto e louro...? Tez mais escura e bigode...? Negro e musculado....?

Seja como for, é do Norte, é dos credores, é dos que não vivem acima das suas possibilidades, é um dos nossos benfeitores. Qual detenção, qual quê! O homem é uma bênção para Portugal.

Além disso, devidamente especializado e competente, seja pelo que aprendeu com os princípios da Jihad, seja pela intensa aprendizagem recebida na Al-Qaeda ou na CIA, é igual.

Não diz o Lomba do Briefing que necessitamos de imigrantes de qualidade, visto gold e tudo? 

Um potencial destes não se pode perder.

Holandês para o Governo, já!

Para o lugar  do Poiares, do Portas, do Mota, do Coelho, qualquer um serve.

Terrorista por terrorista.....

 

 

 

 

 


sábado, 5 de julho de 2014

MIA COUTO : A LÌNGUA PORTUGUESA BEIJA ÁFRICA

António Emílio Leite Couto, biólogo, professor de ecologia na Universidade Eduardo Mondlane, nasceu na Beira, Moçambique, a 5 de Julho de 1955.
O mundo conhece-o como Mia Couto. "Mia" porque o seu irmão não era capaz de pronunciar o seu nome, e porque o António Emílio tem, desde sempre, uma grande paixão por gatos.
Mia Couto é, actualmente, um dos grandes escritores em Língua Portuguesa, Prémio Camões de 2013, entre outros que recebeu, todos merecidos.
Pegou na ferramenta nascida aqui junto ao Atlântico, levou-a, apertada ao coração, para o Índico, enriqueceu-a com os dialectos locais, juntou a atmosfera única de África, as memórias dolorosas da guerra colonial e da guerra civil, deu voz aos que estavam acorrentados e com medo, e deu-nos uma das mais brilhantes criações literárias do nosso tempo.
Romancista, contista, poeta, cronista, o seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula", de 1992, foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.

Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar."
(excerto de "Terra Sonâmbula")

A sua primeira obra, de 1983 é, no entanto, um livro de poemas, "Raiz de Orvalho".
No entanto, seria fundamentalmente através do romance que Mia Couto construiu a sua grande obra, a sua visão africana escrita em português.
O conjunto dos seus escritos está, entre nós, editado pela Editorial Caminho, aguardando os seus fiéis leitores, para breve, um novo trabalho (o último romance data de 2012, "A Confissão da Leoa").
E já que começou por publicar poesia, é com um poema que se fecha este post, sugerindo-se, e recomendando-se, uma viagem ao mundo de Mia Couto.


 "Identidade
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço "
(de "Raiz de Orvalho")

 

 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

CONSELHO DE ESTADO : ???

 
Acta do Conselho de Estado de 3 de Julho de 2014:

"Aos três dias do mês de Julho do ano do Senhor de 2014 reuniu, no Palácio Real de Belém, pelas dezassete horas, sob a presidência de Sua Alteza D. Cavaco de Boliqueime, o Cagarro, o venerando Conselho de Estado, estando presentes os suspeitos do costume, menos dois, o Califa da Madeira por ter andado à estalada com um avião, e o Reverendo Soares, por estar na hora da merecida sesta.
Abriu o Concílio o Excelso Cavaco, com a seguinte declaração:
-Blá-blá, vírgula, blá-blá, blá-blá, blá-blá! Blá-blá?
Todos os restantes presentes se curvaram em silêncio respeitoso, tendo concordado nos seguintes termos:
-Blá-blá, e mais ainda blá-blá! Prontxo blá! E outro Blá para o Tribunal Constitucional e para o Sócrates! Blá-Blá!!!
E nada mais se tendo discutido, se lavra a presente acta que, depois de lida, vai ser assinada por todos os figurantes".
Feito!   

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SOPHIA : NO PANTEÃO DA POESIA

Querida Sophia, hoje vão emparedar-te no Panteão.
Vais ficar entre Aquilino Ribeiro e Humberto Delgado, decerto boas companhias, mas tu, Sophia, gostarias era de respirar o poema, e de ver o mar, o mar que tu adoras, o mar que te inspira, e que mal se avista, ou até não, ali da colina de Santa Engrácia.

              Mar Sonoro
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Mas sabes, Sophia, ali confinada talvez te julguem silenciada, veneranda, objecto de peregrinação, 
esquecida, desconhecendo a rebelde que foste, o grito na escuridão, a poesia acesa, certeira.
Aqueles que te desconhecem, talvez pensem que ser artista não é inovar, criar, abrir o mundo, abrir
a inteligência, obrigar a pensar e a agir, mas sim venerar o poder e agradecer a paga que lhes dão, 
quando dão, como fizeram ao grande Camões, que cantaste.
Camões e a Tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.


 Desconhecem, talvez, digamos, de certeza, que cantaste as dores desta Pátria mas, também,
a sua redenção, a catarse colectiva em que acordámos em Portugal.
Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra   rio   vento   casa
Pranto   dia   canto   alento
Espaço   raiz   e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo

 
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
 
O teu Panteão, Sophia, é o País, o Mar, a Areia, a Lua, a Manhã.
É a poesia!
E se te querem homenagear, divulguem os teus poemas, nas escolas, em todas elas, em
todas as colectividades, não a escondam, leiam-nos, estudem-nos, amem-nos.
Mas, querida Sophia, é tarefa demasiada para quem não vê, não ouve e não lê.
Deixa lá...
A Poesia abraça-te e acolhe-te, cantando os teus versos, enrolados na espuma que, porque não, beija a areia nas praias gregas, que adoravas.
Mas nós vemos, ouvimos e lemos.

Até sempre, Sophia.