terça-feira, 8 de julho de 2014
sábado, 5 de julho de 2014
MIA COUTO : A LÌNGUA PORTUGUESA BEIJA ÁFRICA
António Emílio Leite Couto, biólogo, professor de ecologia na Universidade Eduardo Mondlane, nasceu na Beira, Moçambique, a 5 de Julho de 1955.
O mundo conhece-o como Mia Couto. "Mia" porque o seu irmão não era capaz de pronunciar o seu nome, e porque o António Emílio tem, desde sempre, uma grande paixão por gatos.
Mia Couto é, actualmente, um dos grandes escritores em Língua Portuguesa, Prémio Camões de 2013, entre outros que recebeu, todos merecidos.
Pegou na ferramenta nascida aqui junto ao Atlântico, levou-a, apertada ao coração, para o Índico, enriqueceu-a com os dialectos locais, juntou a atmosfera única de África, as memórias dolorosas da guerra colonial e da guerra civil, deu voz aos que estavam acorrentados e com medo, e deu-nos uma das mais brilhantes criações literárias do nosso tempo.
Romancista, contista, poeta, cronista, o seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula", de 1992, foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.
Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as
semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher:
nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se
povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em
nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E
já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa
do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa.
Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria
desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria
encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos
marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca
capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre
na praia, com os olhos postos no mar."
(excerto de "Terra Sonâmbula")
(excerto de "Terra Sonâmbula")
A sua primeira obra, de 1983 é, no entanto, um livro de poemas, "Raiz de Orvalho".
No entanto, seria fundamentalmente através do romance que Mia Couto construiu a sua grande obra, a sua visão africana escrita em português.
O conjunto dos seus escritos está, entre nós, editado pela Editorial Caminho, aguardando os seus fiéis leitores, para breve, um novo trabalho (o último romance data de 2012, "A Confissão da Leoa").
E já que começou por publicar poesia, é com um poema que se fecha este post, sugerindo-se, e recomendando-se, uma viagem ao mundo de Mia Couto.
"Identidade
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço "
no mundo por que luto nasço "
(de "Raiz de Orvalho")
sexta-feira, 4 de julho de 2014
CONSELHO DE ESTADO : ???
Acta do Conselho de Estado de 3 de Julho de 2014:
"Aos três dias do mês de Julho do ano do Senhor de 2014 reuniu, no Palácio Real de Belém, pelas dezassete horas, sob a presidência de Sua Alteza D. Cavaco de Boliqueime, o Cagarro, o venerando Conselho de Estado, estando presentes os suspeitos do costume, menos dois, o Califa da Madeira por ter andado à estalada com um avião, e o Reverendo Soares, por estar na hora da merecida sesta.
Abriu o Concílio o Excelso Cavaco, com a seguinte declaração:
-Blá-blá, vírgula, blá-blá, blá-blá, blá-blá! Blá-blá?
Todos os restantes presentes se curvaram em silêncio respeitoso, tendo concordado nos seguintes termos:
-Blá-blá, e mais ainda blá-blá! Prontxo blá! E outro Blá para o Tribunal Constitucional e para o Sócrates! Blá-Blá!!!
E nada mais se tendo discutido, se lavra a presente acta que, depois de lida, vai ser assinada por todos os figurantes".
Feito!
quarta-feira, 2 de julho de 2014
SOPHIA : NO PANTEÃO DA POESIA
Querida Sophia, hoje vão emparedar-te no Panteão.
Vais ficar entre Aquilino Ribeiro e Humberto Delgado, decerto boas companhias, mas tu, Sophia, gostarias era de respirar o poema, e de ver o mar, o mar que tu adoras, o mar que te inspira, e que mal se avista, ou até não, ali da colina de Santa Engrácia.
Mar Sonoro
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Mas sabes, Sophia, ali confinada talvez te julguem silenciada, veneranda, objecto de peregrinação,
esquecida, desconhecendo a rebelde que foste, o grito na escuridão, a poesia acesa, certeira.
Aqueles que te desconhecem, talvez pensem que ser artista não é inovar, criar, abrir o mundo, abrir
a inteligência, obrigar a pensar e a agir, mas sim venerar o poder e agradecer a paga que lhes dão,
quando dão, como fizeram ao grande Camões, que cantaste.
Camões e a Tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.
Este país te mata lentamente.
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.
Este país te mata lentamente.
Desconhecem, talvez, digamos, de certeza, que cantaste as dores desta Pátria mas, também,
a sua redenção, a catarse colectiva em que acordámos em Portugal.
Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
O teu Panteão, Sophia, é o País, o Mar, a Areia, a Lua, a Manhã.
É a poesia!
E se te querem homenagear, divulguem os teus poemas, nas escolas, em todas elas, em
todas as colectividades, não a escondam, leiam-nos, estudem-nos, amem-nos.
Mas, querida Sophia, é tarefa demasiada para quem não vê, não ouve e não lê.
Deixa lá...
A Poesia abraça-te e acolhe-te, cantando os teus versos, enrolados na espuma que, porque não, beija a areia nas praias gregas, que adoravas.
Mas nós vemos, ouvimos e lemos.
Até sempre, Sophia.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
THE WHO : ROCK PURO A 90 o
Em Junho de 1964, quatro rapazes ingleses, de seu nome Peter Townshend, Rogar Daltrey, Keith Moon e John Entwistle, formavam um grupo rock que, pouco tempo depois, se tornaria famoso quando, num final de espectáculo na "Railway Tavern", Townshend, por acaso, partiu a guitarra. O público riu-se. Peter pega noutra guitarra e, literalmente, desfá-la perante uma audiência atónita.
A moda ficou, e as pessoas esgotavam os espectáculos para assistirem àqueles finais apocalípticos, em que também o baterista Keith Moon ajudava à festa escaqueirando pratos, tambores, o que apanhasse pela frente.
Quem chegasse a Londres poderia perguntar a um autóctone : "Who are they?". Resposta:
"The Who", uma das maiores bandas de rock que surgiram no Olimpo da Grande Música.
("Baba O'Reilly - do album "Who's Next" de 1971)
Agressivos, inovadores, aliando a rebeldia, personalizada por Daltrey, ao talento e conceptualismo de Townshend, com Entwistle e Moon também a compôr, passam para a posteridade os álbuns que, no seu todo e nas suas canções contam uma história do princípio ao fim, onde Peter executa os seus riffs únicos de guitarra e onde, da sua criatividade, nasce a primeira grande "ópera rock": "Tommy" de 1969.
("Pinball Wizard", da ópera "Tommy")
"Who's Next", de 1971 é considerado uma das obras-primas da história do rock, e "Live at Leeds" (1970) o melhor album de sempre gravado ao vivo.
("Won't get fooled again", do album "Who's Next")
E em 1973 voltariam a surpreender, ao lançar a sua segunda ópera-rock, "Quadrophenia", que deu nome a uma tournée que ainda dava a volta ao mundo em 2012 e 2013, superadas as trágicas mortes de Moon (1978) e Entwistle (2002).
("Love Reign O'er Me" de "Quadrophenia")
Este post é apenas um aperitivo em que se sugere, e convida, a estudar a sua influência, a ler a história do seu percurso, e, acima de tudo, a ouvir essa mítica banda, de qualidade inatacável, e que marcou toda uma geração.
("My Generation" do album do mesmo nome, de 1965. Em 2012 The Who encerraram os Jogos Olímpicos de Londres com esta música. 47 anos decorridos....Intemporais!)
sábado, 28 de junho de 2014
A MINHA PÁTRIA É A MINHA LÍNGUA
(Testamento de D.Afonso II, datado de 27/06/1214)
Rezam a crónicas que, ontem, 27 de Junho, passaram 800 anos sobre a publicação do primeiro documento em Língua Portuguesa, o denominado "Testamento" de D. Afonso II.
Isto que diz respeito à comunicação escrita.
Quanto à oral, foi evoluindo desde os tempos de barbudos "Homens do Buçaco", passando pelas legiões romanas, árabes das hortas, celtas e visigodos.
Língua Portuguesa (escrita e falada) que foi sempre evoluindo, incorporando, transmitindo, deitando-se nas praias de África, nos palácios da Índia ou China, nas margens do Amazonas, nas águas de Porto Seguro.
Sempre viva, sempre inventando-se, sempre dando ao mundo poetas, romancistas, dramaturgos, cantautores, tradições, lendas, o pulsar das veias e artérias vivas que a transformam na quarta língua mais falada do mundo.
Se querem honrar e prosseguir estes 800 anos, então deixem-na respirar e continuar a inovar-se, a nascer e a renascer.
Não a sepultem debaixo de um qualquer "Aborto" Ortográfico!
Não se nasce impunemente com aa riqueza desta Língua Portuguesa!
("Língua" - Caetano Veloso e Elza Soares)
I GUERRA MUNDIAL : 100 ANOS
Passam hoje 100 anos sobre o dia em que, em Sarajevo, foi assassinado o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, arquiduque Francisco Fernando, incidente que foi o pretexto próximo para o eclodir da Primeira Guerra Mundial que, durante quatro anos, varreu a Europa, o Próximo e Médio Oriente e África.
Afirmação do pangermanismo, designadamente depois da unificação alemã desde 1870, tentando a hegemonia sobre as nações da Europa Central, e estendendo a influência aos países periféricos, conflitos regionais a nível europeu, redesenhar das fronteiras, designadamente nos Balcãs, feroz competição entre os grandes blocos industriais e financeiros (Alemanha, França, Grã-Bretanha), tentativas de obter, para cada lado, o apoio do grande Império Russo, afirmação perante os emergentes Estados Unidos.
E depois da I, a II Guerra Mundial.
E depois de mais de 70 milhões de mortos nos dois conflitos, e 100 anos passados, olha-se para a Europa e vê-se...o quê?
Domínio económico e financeiro da Alemanha, conflitos regionais e novas fronteiras (ex-Jugoslávia, Ucrânia...), renascer do Império Russo, Grã-Bretanha receosa de uma União Europeia governada a partir de Berlim, crise financeira global a níveis quase paralelos com 1929/32, eclosão de movimentos nacionalistas, xenófobos e racistas.
Familiar, não é?
Alguém aprendeu alguma coisa?
("The pipes of peace" - Paul McCartney)
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