domingo, 23 de junho de 2013

PORTO

Hoje é noite de São João.
Há festa, especialmente no Porto.
Aqui fica um hino à "Antiga Mui Nobre Sempre Leal Invicta Cidade do Porto".

sexta-feira, 21 de junho de 2013

"E PUR SI MUOVE"

No dia 22 de Junho de 1633 Galileo Galilei, já envelhecido e doente, abjurou, perante o tribunal do Santo Ofício, as suas convicções científicas, designadamente a teoria que defendia que a Terra e os restantes planetas giravam à volta do Sol, e que a Terra não era o centro do Universo, como defendia a tese de Aristóteles e Ptolomeu, e era consagrado pela Igreja Católica.
Acusado de heresia, o velho Galileo renegou, então, tudo o que dissera e escrevera.
A lenda diz que, no final do julgamento, terá pronunciado, em surdina, para que o Santo Ofício (actual Congregação para a Doutrina da Fé) não o ouvisse, a frase em epígrafe, que se pode traduzir como "E no entanto, ela move-se", aludindo à Terra.
A questão de o Sol ou a Terra serem o centro do Universo era muito mais que uma simples questão astronómica ou de Fé. Veja-se, ou leia-se, a excelente peça de Bertolt Brecht "Galileo Galilei".
O sistema aristotélico-ptolomaico era doutrina assente por mais de 1000 anos. Alterar esse conceito poderia conduzir, por exemplo, a questionar o direito "divino" dos reis, o direito "natural" a explorar servos da gleba, a propriedade "natural" de possuir escravos, a possibilidade "natural" de armar exércitos particulares, a inspiração "divina" de enviar Cruzadas contra os "infiéis", a existência "natural" de ricos e pobres.
No fundo, era colocar em causa todo um sistema de apropriação de bens, fossem eles fundiários ou fiduciários, meios de produção, e força de trabalho, para enriquecimento de muitos poucos.
Se a teoria vingasse, o que poderia suceder se a base da pirâmide começasse a questionar as bases em que a sociedade assentava?
Por isso, e como exemplo, Galileo foi condenado.
Só que ela, a sociedade, ao longo da História foi-se, de facto, movendo.
E continua mover-se.
Não falamos só deste país, com 23,5% da população considerada em situação de pobreza, com o PIB a representar 75% da média europeia (em 2010 era 80,3%...), em que o senhor de Belém diz que a acção do Estado deve ser substituída pela caridadezinha, em que o puto Maduro afirma que a chatice é "tudo ser contestado". É muito mais fácil ao poder despedir pessoas, cortar apoios sociais e alterar a lei da greve. Para a Terra continuar a ser o centro do Universo.
E mentir descaradamente e, pasme-se, sem contestação visível. Exemplo? Eis: O Sr. Coelho, e o puto Maduro têm o desplante de afirmar que o governo está a adiantar o subsídio de férias. Essa a afirmação. O facto é que os duodécimos que os funcionários do estado e empresas públicas têm vindo a receber respeitam ao subsídio de Natal. O de férias é atirado para Novembro (para skiarmos?). Não tapem a floresta com a árvore. Pela sua natureza, pela sua importância económica, pela sua própria designação, subsídio de férias e de Natal são realidades claramente distintas. Não nos anestesiem ou nos tomem por parvos!
Depois admirem-se de 15 de Setembro, greves de professores, ou greves gerais.
Mais do que a estafada dicotomia entre direita e esquerda, são a dignidade, respeito e auto-estima que se devem debater, e lutar por tal.
Tal como na Turquia, em que o movimento popular, de início assumindo uma vertente ecológico, subiu a outro mar, em o que se contesta é a pretensão de minar as bases em que a assenta a sociedade turca, orgulhosamente laica desde a revolução de Kemal Ataturk em 1923, através de uma subtil islamização. Desde a proibição de demonstrar afectos em pública, à proibição de ingestão de bebidas alcoólicas após as 22 horas. Acima de tudo, contesta-se a limitação dos direitos de uma sociedade liberal e as fundações laicas da República.
Tal como no Brasil, em que mais do que protestar contra o aumento dos transportes, se luta pela melhoria da qualidade destes, por mais e melhores hospitais e escolas, pela continuação do erradicar da pobreza, por uma mais racional distribuição das verbas públicas, comparado com os gastos astronómicos com o Mundial de futebol e os Jogos Olímpicos. 
Em qualquer dos casos, luta-se por uma melhor qualidade de vida, pela dignificação de cada um e de todos nós, pelo direito à felicidade, para que o Sol continue a brilhar e as flores a sorrirem-nos.
Para não dizer que não falei das flores...



   
    

21 DE JUNHO

Hoje, 21 de Junho, é um dia muito, muito especial. Para duas pessoas.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

SARAMAGO


Completaram-se ontem 3 anos sobre a morte de José Saramago.
Deixou-nos uma obra única, cheia de vida e de histórias dentro da História.
Deixou-nos uma Língua Portuguesa ( e não "acordês") muito mais rica, versátil e burilada, ele que foi um paciente artífice desse nosso bem supremo.
Deixou-nos, e está sempre presente, fazendo parte intríseca do ADN da nossa cultura, cultura que é a argamassa de um país, de um povo, sem a qual não há passado, nem futuro.
E que nos levanta do chão!


(Nota: o texto que se segue é uma pequena homenagem a José Saramago)


"LEVANTADOS DO CHÃO

*  A José Saramago

            Quando o teu avô pressentiu a companhia gelada da senhora de negro e gadanha nas mãos, saíu para fora de casa, andou pelo caminho e abraçou-se a uma árvore. Não sabia ler nem escrever, diziam. Mas sabia ler a pulsão fervilhante da vida da terra, da natureza, da força telúrica e seminal que emana de todos os seres vivos, dos animais, das plantas, e também das rochas, areias, águas, ares que nos rodeiam e nos enchem, pulsando ininterruptamente.
Não sabia escrever, mas nesse momento escreveu uma das mais belas odes ao sentido da existência, a uma devoção ao natural, que não necessita de grandes interpretações teológicas sobre questões de fé, ou de intermediários entre o humano e o que determina a vida de todos os dias.
Haverá algo que nos transmita tão bem a força da criação melhor do que uma árvore, que começa numa pequena e buliçosa semente, e se transforma num bom gigante de  múltiplos braços abertos para nos acolher.
Por estas e por outras, e por outros exemplos que todos os dias nos são dados por pessoas ditas “analfabetas”, as forças naturais influenciam-nos mais do que nós, os ditos “cultos”, podemos adivinhar. Leiam, por exemplo, “A um deus desconhecido” de John Steinbeck, se estiveres de acordo José.
E existe algum assunto que seja tabu ou não possa ser posto em causa? Só se forem aqueles que, por falta de argumentos, se receie que possam ser alvo de discussão, da qual, segundo os antigos, e sábios, nascia a luz.
A luz que traria a cultura, o conhecimento, a todos nós. Fruto proibido ? Talvez o seja, para os que ainda crêem que o homem não está preparado para todas as revelações. Como são cegos, deixando-se arrebanhar por outros cegos, como melhor se leria no “Ensaio sobre a cegueira”.
Mal sabias, José, vindo da Azinhaga do Ribatejo, serralheiro mecânico como primeira profissão, as andanças em que, felizmente para todos nós, te iriam meter.
O curioso é que, ao mexeres em assuntos em princípio tão delicados como a religião ou a morte, assuntos que muitos não querem ver tocados, porque, sabemo-lo,  é chato, para esses muitos, é que nada é absoluto, e o que ressalta, pelo menos para o escriba agora de serviço, é que a humanização dos actores principais das obras que a tua imaginação, sensibilidade e cultura nos iam oferecendo salta para a ribalta do leitor.
Então a negra, a cruel, a tirânica morte, afinal apaixona-se como qualquer mortal, despindo os trajes executórios com que a cobriam, e vestindo as roupagens de uma bela e sensual mulher, revelando, também, as fragilidades que qualquer simples mortal assume no dia a dia, de acordo com o teu livro “As intermitências da morte”, e onde as fronteiras entre o mal absoluto (a morte) e o bem, ou felicidade,  (o corpo da bela mulher) se confundem se interpenetram. Afinal, onde está fronteira entre o mal e o bem? Existirá? E o que parece horrível sê-lo-á tanto, como o que parece belo, também o será assim tão maravilhoso?  Ou dependerá, apenas, dos olhos e sentidos de quem vê, toca e sente? Ou de como o nosso cérebro descodifica as mensagens que lhe chegam de todos os lados ? Isto é, nada existe de absoluto, e tudo é relativo (o que nos leva, José, e se estiveres de acordo, a esse perturbante filme de Neil Jordan “Entrevista com o vampiro”, e ao mito de a bela e o monstro).

ANIVERSÁRIOS

Sir Paul McCartney, Macca para os amigos, figura incontornável da cultura mundial do nosso século e do século XX, co-responsável por uma das maiores, e mais significativas, transformações culturais e civilizacionais dos dias que vivemos, completou 71 anos.
Ontem.

E hoje completa 69 anos Chico Buarque de Holanda, músico, dramaturgo e escritor brasileiro, também ele nome incontornável da cultura do seu país, da América Latina e do Mundo. Umbilicalmente ligado às transformações democráticas do país de Jorge Amado, a música de Chico ainda hoje, de certeza, será ouvida nas ruas do imenso Brasil, nunca construído, sempre em construção.
  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

MANDELA ( E O RUGBY)

Um dia após passarem 37 anos sobre o massacre de Soweto, no qual 4 estudantes negros foram assassinados pela polícia do apartheid, é de justiça, mais uma vez, evocar um Homem com um coração enorme. 
Um coração onde abriga toda a Humanidade.
Os que o amam. Os que o odeiam. A todos acolhe e perdoa.
Falar de Nelson Mandela, é hoje angustiante, dado o seu débil estado de saúde. Já rios de tinta, de debates, de vídeos, vão correndo pelo mundo fora, celebrando a vida e a obra deste Homem único com o qual temos o privilégio de partilhar vários anos e episódios significativos e transcendentes, que mudaram uma nação e um mundo.
Um deles tem a ver com esse desporto de eleição que é o Rugby. A África do Sul ia organizar o Campeonato do Mundo de 1995. Nelson Mandela tinha sido eleito o primeiro presidente negro da África do Sul, e elementos mais radicais queriam alterar os símbolos da equipa de rugby (conhecida por "Springboks"),  ou mesmo extingui-la, já que este desporto estava muito associado ao apartheid.
Nas vésperas do Mundial, foi a decisiva e firme intervenção pessoal de Mandela que o evitou.
Num país que sarava as feridas da discriminação e do ódio, Madiba (o nome pelo qual Mandela é carinhosamente conhecido - nome em dialecto xhosa da sua tribo originária-) percebeu o alcance que o Mundial poderia ter na união de todo um povo.
Desde o início que acompanhou com interesse a preparação da equipa, visitou os jogadores no estágio (tratando-os um a um pelo nome) e estabeleceu uma sólida relação de amizade com o grande capitão da equipa, o branco François Pienaar (leia-se a autobiografia deste, "Rainbow Warrior", da Waterstones). A amizade estendeu-se para fora dos relvados, uma vez que Mandela é o padrinho do filho mais velho de François.
Motivados, os jogadores sul-africanos fizeram milagres. Contra todas as expectativas, os 9ºs. classificados do ranking mundial iam disputar a final contra a super-favorita Nova Zelândia.
Mandela assistiu à final, vestido com as cores dos Springboks, e o símbolo dos mesmos (uma gazela precisamente conhecida como springbok) junto ao coração, recebendo uma longa e calorosa ovação de todos ( a grande maioria brancos!) e gritos de "Nelson, Nelson"!
E quando Joel Stransky pontapeia o drop final, já em prolongamento, é o delírio!
A África do Sul vencera a Nova Zelândia por 15-12 e era Campeã do Mundo!
Quando o presidente negro Nelson Mandela entrega a taça ao capitão branco François Pienaar, não é o estádio de Ellis Park, em Joanesburgo, que une 65.000 sul-africanos. É toda uma nação que se une. É todo um povo. São todas as raças. É a Nação do Arco-Íris. Madiba construíra um país novo.
Mandela e o Rugby tinham unido uma nação, um continente, um mundo.
O "Mundial de Mandela" mudou, também, e definitivamente a história do rugby. O Mundial, de prova quase envergonhada, transformou-se no terceiro espectáculo desportivo mais visto (só suplantado pelos Jogos Olímpicos e Mundiais de futebol), e o Rugby profissionalizou-se e implantou-se a nível planetário. Até entre nós.
  
Quem queira recordar estes momentos especiais, veja, ou reveja o belíssimo filme de Clint Eastwood "Invictus", de 2009, com Morgan Freeman (Mandela) e Matt Damon (Pienaar), baseado no livro de John Carlin "Playing The Enemy : Nelson Mandela and the game that made a Nation".
"Invictus" é também o título de um poema, que acompanhou Nelson Mandela durante os 27 infames anos de cativeiro, particularmente no inferno de Robben Island.

"Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.




domingo, 16 de junho de 2013

INCOMPETÊNCIA E LEI

As recentes polémicas sobre a greve dos professores ou o pagamento do subsídio de férias aos funcionários, mais do que matéria para encher jornais, radiojornais, telejornais, redes sociais, etc., com divulgação de posições pró e contra, por vezes de maneiras e modos extremados e, muitas vezes, demagógicos, vem-nos despertar para outro fenómeno.
Não se trata apenas da justeza ou da injustiça das decisões tomadas, ou da cortina de fumo que muitos meios de comunicação social, descaradamente alinhados com o governo, deliberadamente lançam para o debate.
Trata-se de uma questão que deve ser trazida a esse mesmo debate, e que tem a ver com algo tão óbvio como a COMPETÊNCIA, ou a ausência dela, que se chama INCOMPETÊNCIA.
Para se decretarem leis, regulamentos, greves, é preciso situarmo-nos no quadro legal em que tais actos podem ter lugar.
No nosso caso, no estrito respeito pela Consituição da República, que é o escopo de todo a nossa jurisprudência e de todos os normativos legais em que assentam as relações dentre os cidadão e entre estes e as diversas instituições.
Podemos discordar de um acto governativo ou sindical, mas se respeitar todos os preceitos legais, tal acto é competentemente legítimo, à face das normas que nos regem. O que não impede que o contestemos, na rua, ou através de greve, se tal for necessário, o que também está constitucionalmente previsto.
Muito diferente será tentar torcer a lei, contorná-la, ignorá-la.
Só por pura INCOMPETÊNCIA se pode tentar governar ignorando a Constituição, quem a interpreta (Tribunal Constitucional), as leis (Quadro de Remuneração da Função Pública), os direitos (Greve), e espalhar uma cortina de dislates para enganar a opinião pública, misturando uma verdade com meia dúzia de mentiras.
Por isso, é muito difícil, para certas ideologias, governar respeitando a lei. Tal exige inteligência, discernimento, dialéctica, e apego aos deveres cívicos, sem esperar outra recompensa que não servir o povo que nos elegeu.
Assim, para quem tudo quer destruir, impor a pobreza generalizada, a sujeição, a lei do mais rico e mais forte, é muito mais fácil, se não estamos de acordo com a lei da greve, alterá-la, se não nos revemos na Constituição, ignorá-la, ou aniquilá-la. Não estamos a dizer que qualquer primeiro ministro ou presidente tenha apetência para ser ditador, apenas para INCOMPETENTE.
Por isso, os INCOMPETENTES só sabem governar quando não há leis ou regulamentos, nem oposição nem opinião pública.
Por isso, as ditaduras, todas as ditaduras, são os regimes dos INCOMPETENTES.