sábado, 11 de maio de 2013

PORTO-BENFICA

Hoje é dia de Porto-Benfica!
Mas hoje também temos 1.000.000 de desempregados, 17,7% da população activa, 42% da população jovem, da geração mais habilitada dos últimos anos, que é obrigada a desesperar, a trabalhar com salários de escravo (e para ser escravo foi preciso estudar, lá cantam os Deolinda), a fugir, a emigrar, a voltar a sobrecarregar os magros proventos dos pais e/ou avós.
Mas hoje é dia de Porto-Benfica!
Mas hoje temos famílias destruturadas, abandonos, divórcios, separações, traumas, depressões, filhos e filhas olhando para todos os lados sem nada verem, filas envergonhadas para a sopa dos pobres, a misericórdia e a caridade e assomarem, como a fome e as doenças. E a morte!
Mas hoje é dia de Porto-Benfica!
Os impostos afogam a cidadania, enterram as empresas, a produção, em vez de o estado aumentar as receitas, por cegueira e incompetência (próprias ou encomendadas), as mesmas diminuem, aumenta o défice, aumenta a dívida, aumenta a perspectiva de um buraco sem fundo, de um túnel sem luz, por cima de todos os protestos, todos os gritos, todos os punhos, todas as lágrimas..
Mas hoje é dia de Porto-Benfica!
Mas hoje eles querem aumentar a dose, querem vergar ainda mais quem já está de rastos, para estes vampiros neoliberais não se esgota o sangue da manada, como canta o Zeca nos "Vampiros", são insaciáveis. Até não haver Social nem Estado. A nação é tratada a pontapé. Que se lixe e que pare o país!
Mas hoje é dia de Porto-Benfica.
E o país pára!!!


sexta-feira, 10 de maio de 2013

DONOVAN

Completa hoje 67 anos o cantor escocês Donovan Leitch, nascido e criado nos bairros operários de Glasgow, e, nos anos 60/70, denominado o "Dylan escocês", nos seus primeiros anos de intervenção.
Embora não se possa considerar como das maiores figuras dessa época de clivagem, Donovan mantém-se, no entanto, uma referência que convém sempre revisitar.
Ficam aqui dois exemplos : O desconcertante "Mellow Yellow" e o espectacular "Atlantis".


quinta-feira, 9 de maio de 2013

FERGIE



A partir de 19 de Maio, o futebol mundial vai ficar muito mais pobre.
Sir Alex Ferguson vai deixar de ser o treinador do Manchester United, deixando uma vaga quase impossível de preencher, muito embora ninguém seja insubstituível.
Trata-se, apenas, do melhor treinador de futebol de todos os tempos.
Nascido em 1941, em Glasgow, o temperamento corajoso e inflexível das Highlands da Escócia marcou a sua carreira, como jogador e, especialmente, como treinador.
Começou como jogador em 1957, no Queen's Park (da Escócia, não de Inglaterra), e acabou essa carreira em 1974 no Ayr United.
Os seus primeiros passos como treinador tiveram lugar no East Stringshire (Escócia), em 1974.
Posteriormente, de 1978 a 1986, foi treinador do Aberdeen. Em 1980 conquista o título escocês, 25 anos depois do último triunfo. A proeza repete-se em 1984 e 1985. Em 1983 o Aberdeen conquista e então existente Taça das Taças europeia, ao derrotar o Real Madrid na final, por 2-1. Nesse ano, também sairia vencedor da Supertaça Europeia.
A 6/11/1986 assina pelo Manchester United, então muito abaixo do colosso que é hoje, o que em grande parte, ou na sua quase totalidade, se deve ao trabalho de Alex Ferguson.
O primeiro título conquista-o em 1990 (Taça de Inglaterra), e o primeiro campeonato inglês em 1993, com uma equipa renovada.
Se Ferguson estivesse em Portugal, com a nossa "cultura desportiva", alimentada por "comentadores" e resmas de papel a que chamam "imprensa desportiva", não teria durado 6 meses num qualquer clube de evidência.
Mas, apesar das críticas, estávamos em Inglaterra, pátria do desporto, e onde a expressão cultura desportiva ainda faz sentido.
E não falem dos hooligans, que a sua actividade está bem documentada, e teve tudo a ver com uma senhora falecida semanas atrás, e responsável pelos anos de chumbo ingleses: Margaret Thatcher.
Voltando a Ferguson, e à sua extraordinária carreira, vale a pena recordar os seus êxitos em 26 anos, repete-se, 26 anos, como treinador principal dos Red Devils:
-13 Campeonatos ingleses, dos 20 que o clube ganhou, recordista do seu país;
-5 Taças de Inglaterra
-4 Taças da Liga
-7 Supertaças inglesas
-1 Taça das Taças
-2 Ligas dos Campeões ( a primeira, em 1999, 31 anos depois da única Taça dos Campeões ganha pelo Manchester - 4-1 sobre o Benfica)
-1 Supertaça Europeia
-1 Taça Intercontinental
-1 Mundial de Clubes
É o único treinador a ganhar 5 vezes a Taça de Inglaterra, o 1º. a ganhar a Triple Crown, em 1999 (Campeonato, Taça e Liga dos Campeões), e o 1º. a ganhar o campeonato 3 anos consecutivos (1999, 2000 e 2001).
Até hoje, como treinador, Ferguson disputou2153 jogos, tendo ganho 1252, empatado 489 e perdido 412.
Lançou para a ribalta desportiva nomes como Eric Cantona, Peter Schmeichel, Gary Neville, Phil Neville, Paul Scholes, Ryan Giggs, Van Nistelrooy, Wayne Rooney, David Beckham ou Cristiano Ronaldo. 
É esta a "pesada herança", ou, como diria alguém inteligente, "o desvio colossal" que deixa ao seu sucessor.
Que deverá prosseguir, tendo em mente o lema pelo qual Ferguson sempre se bateu:
"Nenhum jogador é maior que o clube", o que se pode aplicar em muitas situações, e não só no desporto.
Como hoje se escrevia no "Público", Sir Alex Ferguson é um treinador maior que o futebol.  

   

quarta-feira, 8 de maio de 2013

DOMINGO EM FAMÍLIA

REDACÇÃO

Aos domingos é um rebuliço lá em casa, anda tudo maluco, pudera, é dia de cozido à portuguesa, é um vê se te avias na cozinha, até porque hoje temos visitas, a minha mãe é como se tivesse seis braços, assim como aquelas estátuas que se vendem lá em baixo no Martim Moniz, sabem, aqui da Graça ao Martim Moniz é um vai num pé vem noutro, o meu pai até parece um fiscal da ASAE, ou lá o que é que ninguém mais viu, a meter o nariz nos enchidos, a arregalar o olho para o porco, a provar do garrafão do briol comprado na tasca do velho holandês Santos, com tanta prova ainda fica com uma cadela antes do almoço, enfim, o que ele quer é que o almoço acabe antes das cinco, que é para ir para a tasca com o resto da cambada dele ouvir o Benfica, e daqui a pouco chegam as visitas! Primeiro, o Sr. Silva, que é o que vende botijas de gás e pitrolim, e no verão vende farturas aos turistas em Belém, mais a esposa, a Sra. Maria, que anda sempre elegante, parece daquelas modas que estão nas montras do Martim Moniz! aqui a Graça já os topa, entram sempre mudos e saem calados, depois o puto, o Coelho, assim a modos que um estafermo de songamonga, que não diz uma prá caixa, sonsinho, aparvalhado, com um penteado amaricado, eu é que sabia onde meter os enchidos no coelho, e a seguir o Gaspar, que é o que faz as  contas do gás e do pitrolim, um enfezado acabrunhado, parece um fantasma o raio do homem, dizem aqui na Graça que faz as contas, mas nem a tabuada sabe, eu sei mais do que ele, que faz tão bem que em vez de somar só sabe tirar, e o palerma do Silva ainda se ri, ele é só erros atrás de erros, até dizem que tem uma cena em que desvia botijas e vende pitrolim às escondidas, ganda noia, não, este não veio, mas temos à porta o Paulinho, sempre delicado, vende atoalhados contrafactivos, ou lá o que é, nas feiras, mas o meu pai diz que o que o gajo vende é pó de talco, não sei o que o pó tem a ver com o Paulinho, mas o meu papá é que sabe, e por fim vem o Álvaro que vende pastéis de nata que sabem a macdonaldes, ali na esquina da esquadra da Graça, são todos amigos, o Álvaro e os bófias, lá diz o papá! E o papá agora passou-se dos carretos, Então afinal vem esta gandulagem toda, o cozido já não chega, o Silva julga que aquilo é bolo-rei, o Gaspar confiscou os enchidos todos, que é para não nos enchermos, bem feita, o Coelho julga que as couves são toalhetes de cheiro, o Paulinho atirou-se ao rabo de porco, o Álvaro pegou a vaca pelos cornos, e todos juntos mamaram o garrafão, e nenhum diz coisa com coisa! O meu pai fartou-se, pegou na minha mãe e em mim, e lá vamos comer um frango assado à tasca, e ele aos berros pelas ruas da Graça, Já que comem tudo da nossa casa, atafulhem-se e rebentem todos no meio do regabofe, vamos é ouvir o Benfica nas calmas, o Calado é o melhor, pois, mas o Eusébio é que jogava, digo eu, e são assim os domingos em família, mas pela amostra qualquer dia o meu papá acaba com o cozido, e acaba-se a mama, digo eu.  

Guidinha  

 

(NOTA: Este pequeno texto é uma sentida e modesta homenagem ao saudoso "Diário de Lisboa", que ontem completaria 92 anos, ao seu suplemento satírico "A Mosca", e ao autor das "redacções da Guidinha", o grande dramaturgo Luís de Sttau Monteiro ("Felizmente há luar", "Angústia para o jantar", etc.)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

OTELO

Não, não se vai aqui falar de Otelo Saraiva de Carvalho.
Vamos referir a excelente peça de Shakespeare "Otelo, o Mouro de Veneza", que se recomenda vivamente a quem gosta de teatro.
Sem desvendar a trama toda, diga-se apenas que Otelo é um general mouro ao serviço da República de Veneza, combatente prestigioso, que desposa Desdémona, filha de um rico senador da cidade-estado.
Cássio é o seu lugar-tenente, promovido a este cargo em detrimento de Iago, que se julgava com direito a ser o nº. 2.
Começam aqui as falsidades de Iago, conspirando contra Cássio e Otelo, fingindo-se amigo de ambos, semeando desconfianças e suspeitas, colocando os dois aliados um contra o outro, saindo sempre por cima, como angelical inocente, e com Desdémona pelo meio, o que terá um epílogo que se adivinha trágico.
Ontem, Iago voltou aos nossos ecrãs, pelas 19 horas. Só que mudou o nome para Paulo Portas 


 ( Cássio, Iago (de pé) e Otelo)






sábado, 4 de maio de 2013

TARTUFO


"Tartufo", datada de 1664, é uma das mais peças peças de teatro do conhecido escritor francês Molière.
Representada em todos os grandes palcos do mundo, salienta-se, entre nós, a notável interpretação do inesquecível Raul Solnado.
Tartufo é um amigo de um nobre francês, que se instala, muito piedosamente, em sua casa, como conselheiro, para ganhar mais privilégios, mentindo, roubando, defraudando, especulando, manipulando, sob a capa de uma hipócrita piedade, e tudo em nome Deus.
Quase acaba a expulsar os moradores da sua própria casa, à custa de "piedosa" intriga.
Mas não cabe aqui desvendar a trama genialmente urdida por Molière.
Peça que, na altura, denunciava a corrupção, a hipocrisia religiosa, a ocupação de cargos de mando e relevo por espertalhões.
Passados 3 séculos e meio, Tartufo reapareceu ontem, às 20 horas, em Portugal.
Chama-se agora Passos Coelho e o texto não é de Molière, mas de um tal  im"piedoso"  Vitor Gaspar.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

MAIO DE 68: A IMAGINAÇÃO AO PODER

A 2 de Maio de 1968, os estudantes da Universidade de Nanterre (arredores de Paris) marcam uma jornada anti-imperialista com interrupção das aulas. O reitor decide, unilateralmente, o encerramento da escola. O movimento de contestação propaga-se à Sorbonne e a todo o Quartier Latin (margem esquerda do Sena, Paris).
Começa a maior revolta espontânea, tanto política como cultural e social, dirigida contra a sociedade tradicional, a que a França e a Europa assistiram, até hoje.
O mal estar estava latente em toda a sociedade francesa. A sociedade de consumo tomara conta do quotidiano, sem se tomar consciência de todas as implicações e desequilíbrios mundiais daí decorrentes.
Desde há um ano que a economia se deteriorava, com 500.000 desempregados, 2.000.000 de trabalhadores com o salário mínimo e queda dos salários. O interior desertificava-se, e emigração aumentava, e a pressão urbanística criava os "bidonville" `nos arredores das grandes cidades, especialmente Paris, com relevo para o de Nanterre, mesmo ao lado da novíssima Universidade, o que faria os estudantes reflectir sobre a qualidade de vida dos trabalhadores.
A procura de quadros acéfalos para assessorar os possuidores dos meios de produção resultou na massificação do ensino superior, criando estrangulamentos a nível de apoios sociais, material, transportes, etc. 92% dos estudantes universitários provinham das classes média/alta, o que não impediu quer uma gradual tomada de consciência do seu papel na escola, quer na sociedade.
Por outro lado, a longa permanência de De Gaulle no poder (desde 1958), o paternalismo quase sufocante da sua concepção política e executiva, desgastavam o ambiente político francês. O Partido Comunista, na altura o maior da Europa, não resolvia as suas contradições internas desde o Estalinismo, e desiludia os mais jovens. A contestação unia-se no repúdio da Guerra do Vietname e da nuclearização do continente europeu.
Culturalmente, também se assistia à mudança. Desde o Concílio Vaticano II, que abalou a Igreja Católica, até aos movimentos hippie e Poder Negro do outro lado do Atlântico. Multiplicavam-se os exemplos dos padres-operários, começavam, timidamente, a aparecer as escolas mistas, mas mantinha-se a proibição de as raparigas usarem calças nos estabelecimentos de ensino, enquanto o uso da pílula era autorizado desde 1967. Acentuava-se a clivagem entre a juventude e as regras morais anquilosadas e ultrapassadas.
A juventude começa a acreditar que pode ser sujeito activo do poder político e social e pôr em causa a autoridade dos adultos e poderes instituídos. As condições estavam criadas para uma nova dinâmica social.

IL EST INTERDIT D'INTERDIRE

SOYEZ RÉALITES: DEMANDEZ L'IMPOSSIBLE

No dia 3 de Maio, no rescaldo dos acontecimentos de Nanterre (onde Daniel Cohen-Bendit seria suspenso), a Sorbonne é ocupada por cerca de 400 estudantes, que iniciam uma reunião sobre o sucedido e questionando a política e a sociedade. Sem aviso prévio ou negociações, e a pedido do reitor, a polícia de choque invade a escola (o que estava interditado pelo estatuto universitário), espanca e prende estudantes.
O reitor de Nanterre e muitos professores protestam (entre eles Alain Geismar, presidente do sindicato dos professores universitários), protestam e muitos tomam o partido dos estudantes.
Face a estes factos, a revolta espalha-se. O Quartier Latin é palco de barricadas, com o apoio de muitos moradores, que a custo, e à custa de brutalidade, a polícia tenta dominar.



Os partidos tradicionais de esquerda, e os sindicatos "regimentais" desconfiam deste movimento.
No entanto, as bases operárias e trabalhadores compreendem que o movimento é mais amplo, e que, no fim, coloca em causa o poder político e a distribuição da riqueza em França (e no mundo).
A 13 de Maio a França está em greve geral. Um milhão de estudantes e operários desce os Campos Elísios.
A 16 de Maio centenas de fábricas são ocupadas, muitas delas começam a laborar em auto gestão.
22 de Maio é o apogeu do movimento grevista.

Para além das tradicionais reivindicações quantitativas, os trabalhadores associam, o que é significativo e inédito, reivindicações qualitativas: autonomia, responsabilização (e não automatização) dos assalariados, cogestão das empresas, auto gestão.
A nível cultural, por exemplo o teatro Odéon transforma-se em forum onde tudo e todos podem discutir sobre tudo, criticando, propondo, imaginando, dialogando, libertando a palavra, que, entretanto, se espalhara, livre, pela cidade.
Vizinhos, novos e velhos, homens e mulheres, desconhecidos, conversam, discutem, agitam as consciências.
Nestes dias, perante a demissão e a inoperância do Poder, são os sindicatos e os comités de empresas que mantêm a França de pé. E, a nível cultural, e intelectual, a rua, as escolas, as fábricas tentam acender a lutas que nasce da discussão.
LES MURS ONT LA PAROLE

Só que o Poder reage, e tenta absorver a contestação, com o consentimento tácito dos grandes sindicatos (CGT), do patronato e dos partidos tradicionais (PCF entre outros).
Os chamados Acordos de Grenelle, de 27 de Maio satisfazem, acima de tudo, as reivindicações qualitativas: aumento de 35% do salário mínimo, aumento de 10% dos salários reais, 4 semanas de férias pagas, criação de secções sindicais de empresa.
Mas estes acordos são rejeitados pelas bases.

TRAVAILLEUR: TU AS 25 ANS, MAIS TON SYNDICAT EST DE L'AUTRE SIÈCLE! 

Também a 27 de Maio, tenta-se criar um governo de salvação nacional, presidido pelo socialista Pierre Mendès-France, mas a hipótese gora-se.
Por fim, a 30 de Maio, são convocadas, para 29/30 de Junho, eleições gerais legislativas, que virão a proporcionar a De Gaulle e ao seu "partido" a maioria absoluta.
De Gaulle não caiu, mas provou-se que era substituível, como qualquer outro agente político.
Mas a explosão de Maio começa a perder força. A chantagem do poder corrói com veneno. 
No início de Junho, as greves começam a ser suspensas, muitas fábricas são desocupadas, à força bruta, pela polícia de choque, e entre 14 e 16 de Junho a Sorbonne e o Odéon são "limpos".
Daniel Cohen-Bendit é exilado e proibido de entrar em França (NOUS SOMMES TOUS DES JUIFS ALLEMANDS).
Apesar de toda a agitação, contam-se 5 mortos (1 polícia, 2 estudantes e 2 trabalhadores).


E AGORA? 

O Maio de 68 foi, inicialmente, uma revolta da juventude estudantil, alastrando ao mundo do trabalho e a toda a população, e sobre todo o território francês.
Foi o maior movimento social da França e da Europa no século XX.
Mais do que uma simples contestação ao regime, ou do que reivindicações materiais ou salariais, foi uma contestação uniforme de todos os tipos de autoridade.
Deseja-se a liberalização dos costumes, contesta-se a velha Univdersidade e o velho ensino, coloca-se em causa a sociedade de consumo e as instituições e valores tradicionais, incluindo as relações familiares e entre sexos.
O Maio inscreve-se num conjunto de acontecimentos nos meios estudantis e laborais de muitos países, como a Alemanha (movimentos dos estudantes alemães socialistas), Estados Unidos (Universidade de Berkeley, contestação à Guerra do Vietname, Poder Negro, movimento hippie), México, Brasil, Checoslováquia (Primavera de Praga).

A herança de Maio é enorme, mesmo para os que o criticaram e criticam, e muitas das suas conquistas, designadamente nos planos social e cultural, mais que puramente político, estão bem vivas.
As medidas quantitativas dos Acordos de Grenelle foram, de facto, aplicadas, a velha Universidade Napoleónica foi desmantelada, a sebenta iria dar lugar ao conhecimento e à discussão, o aluno passa de discípulo a sujeito interveniente. Fala-se em coeducação e participação. Alunos e pais passam a fazer parte da composição dos conselhos escolares.
Maio vem chamar a atenção para a Ecologia política (Cohen-Bendit, velho e grande lutador, é deputado pelos Verdes no Parlamento Europeu), as relações familiares e entre os sexos assenta em bases dialogantes e responsabilizantes, institui-se a descentralização, fala-se no regresso à terra e à preservação dos costumes locais. da cultura popular e de raiz.
A sociedade francesa abre-se, bruscamente, ao diálogo social e mediático, que se infiltra em todas as camadas sociais e familiares.O exemplo extravasa fronteiras.
A interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada, e a maioridade consagrada para os 18 anos (em 1974).
Toma-se consciência da mundialização da sociedade moderna e põe-se em causa o modelo ocidental da sociedade de consumo.
Dá-se lugar à autonomia, à realização pessoal, à criatividade, pluridisciplinaridade, recusa e interrogação sobre as regras tradicionais e autoridade. Fala-se, e implementam-se, a auto gestão, a cogestão, o comunitarismo.  
A cultura, e a fruição da mesma, democratizam-se, multiplicam-se as Organizações Não Governamentais, muitos membros da Igreja querem regressar aos valores originais, a consciência antinuclear ganha dimensão, questionam-se as certezas dos velhos partidos de esquerda.
Enfim, toma-se consciência da dinâmica individual, da dinâmica de grupo, de tudo questionar, de não acreditar em certezas absolutas, de que tudo é relativo, como diria Einstein.
A França, a Europa e o Mundo já não eram os mesmos! Maio de 68, no fundo, valera bem a pena e será um farol para acções futuras, a nível mundial.

PRENEZ VOS DÉSIRS PAR LA RÉALITÉ
 

E como a actual e amorfa Europa bem necessitada anda de um novo sobressalto...Europeu!