E se hoje é o Dia Mundial da Dança, liberte-se o corpo, liberte-se o movimento, soltem-se os sentimentos e as emoções pelos braços, perns, tronco, cabeça.
E, se for caso disso, perca-se a cabeça!
(John Travolta em "Grease" - música de Michael Gibson)
(Ginger Rogers e Fred Astaire dançam "Cheek to Cheek" - do filme "Top Hat", música de Irving Berlin)
(Excerto de "A Sagração da Primavera", de Stravinsky - coreografia de Maurice Béjart)
("Libertango", de Astor Piazzola)
(Leslie Caron e Gene Kelly em "Um Americano em Paris - música de Gershwin)
Ontem, a cultura portuguesa derramou lágrimas sentidas.
Aos 72 anos, Vasco Graça Moura, poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, cronista, historiador, antologiador, advogado, político, gestor cultural, deixou-nos.
Vasco era, como muito apropriadamente o denominaram, um Homem do Renascimento no século XXI.
Fica-nos, felizmente, uma obra vastíssima, que na poesia atingiu os cumes do Olimpo.
"A poesia é a minha forma verbal de estar no mundo", dizia. E com toda a razão:
"Soneto do amor e da morte" ("Antologia dos Sessenta Anos")
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Não se pode, também, esquecer a sua excepcional craveira de tradutor, desde Racine ("Fedra"), François Villon ("Testamentos"), Dante ("Divina Comédia" ou "Vita Nuova"), Petrarca ("Rima e Triunfos"), Rostand ("Cyrano de Bergérac"), até aos sonetos de Shakespeare.
Foi agraciado com diversos prémios, desde o do Pen Clube Português ao da Associação Portuguesa de Escritores, do Prémio Vergílio Ferreira ao Prémio Pessoa, e, lá fora, citam-se o Colar de Ouro do Festival de Struga (Macedónia), de 2004, que já contemplou dois Prémios Nobel, e o Prémio de Tradução de 2007 do Ministério da Cultura de Itália.
De referir, também, o trabalho desenvolvido como administrador, primeiro da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, reflectido na dinamização editorial daquela casa, e, actualmente, à frente dos destinos da Fundação Centro Cultural de Belém, cargo que ocupou desde 2012 até poucos dias antes da sua morte.
Poeta multifacetado, escreveu poemas que foram musicados e cantados por nomes como Camané, Carminho, Kátia Guerreiro, ou Carlos do Carmo.
("Morrer de Ingratidão" - Voz de Carlos do Carmo, música de Vitorino de Almeida, poema de Graça Moura e, ao piano, Maria João Pires - e digam lá se isto não é cultura!)
E Vasco Graça Moura faz-nos muita falta numa luta importante, de soberania: a defesa intransigente da Língua Portuguesa, contra esse crime de lesa-língua, como lhe chamava, e bem, a essa aberração que dá pelo nome de Aborto, perdão, Acordo Ortográfico, contra o qual batalhou, literalmente, até ao último suspiro.
Recomenda-se, sobre a matéria, a leitura do seu ensaio de 2008, "Acordo Ortográfico: A Perspectiva do Desastre" (Editora Aletheia).
Em sua memória, por tudo quanto fez e escreveu, compete-nos continuar o combate pela dignidade da Língua, que deve evoluir a partir dos que a falam, escrevem e lêem, e não por imposição.
Lá onde estiverem, Vasco e o seu grande amigo José Saramago estão de olhos postos em nós.
Era dia de mercado na cidade de Gernika, capital espiritual do País Basco que tinha unilateralmente declarado a independência, face ao golpe do sanguinário Francisco Franco.
Cerca de três horas depois, jaziam numa cidade arrasada, cerca de 1.650 mortos e 890 feridos.
A aviação nazi da Legião Condor, com 40 aviões, que Hitler tinha enviado para ajudar o seu amigo Franco, tinha acabado de cometer a "proeza", mais um dos muitos massacres dessa guerra fratricida.
Gernika nem era objectivo militar ou estratégico.
Serviu, apenas, para tentar quebrar o moral da Nação Basca, e para os alemães treinarem bombardeamentos sobre alvos urbanos, para o que se seguiria cerca de dois anos e meio depois.
Para que não se perca a memória.
E, precisamente, em memória da carnificina, Pablo Picasso pintou a obra-prima acima reproduzida, e expressamente proibiu a sua ida para Espanha sem que neste país fosse restaurada a democracia.
A 9 de Setembro de 1981 o quadro regressou a Madrid, vindo de Nova Iorque, e encontra-se exposto no Museo Reina Sofia, junto à estação de Atocha.
Foi o último exilado a regressar à Pátria, após a queda da ditadura franquista.
("Ay Carmela" ou "El Paso del Ebro" - cântico das Brigadas Internacianais durante a Guerra Civil espanhola)
É o rosto, um dos rostos que abriram o peito às balas e arriscaram a vida para cumprir a Vida.
Chama-se Salgueiro Maia. Deu o rosto, outros o poderiam dar, muitos, mesmo muitos.
Convida-nos a aproximarmo-nos. Mais perto, mais perto.
Fita-nos e fitemo-lo. Parece que se ouvem palavras. Que se nos dirigem como balas:
"O que é que vocês fizeram do 25 de Abril?".
Questiona-nos, não como dono ou proprietário dessa data única, o que nunca quis ser, o que nunca quiseram ser.
Mas abriram de par em par as portas de Abril, num dos dias mais luminosos de uma História de 900 anos.
"Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo", escreveu Sophia.
Dia raro e mágico, como, por exemplo, aquele em que Bartolomeu Dias banhou os olhos nas águas do Índico e, dobrando o Cabo da Boa Esperança, as naus deixaram para trás a Idade Média e cruzaram os mares da Idade Moderna.
E a 25 de Abril, eles dobraram o cabo da apagada e vil tristeza e inundaram-nos com os cravos da liberdade.
Que a deram a todos nós, repete-se, a todos nós.
"Era um Abril comigo, Abril contigo / Ainda só ardor e sem ardil", cantava Alegre.
Abril, 25 de Abril, não é só de uns nem de outros. É de todos.
Somos todos responsáveis por Abril, por acção ou omissão.
Abril não é só sessão solene, cravo, discurso tantas vezes cínico, hipócrita, mentiroso.
Não é só jantar, almoço, saudade, suspiro, manifestação litúrgica, apagar a fogueira, recolher as cinzas.
Abril é todos os dias, é lutar, pensar, reflectir, discutir, participar, mudar.
Não é votar e voltar as costas.
Lavar as mãos como se já não fosse connosco.
Abril é participar, exercer cidadania, soberania.
Em Abril quem mais ordena é o povo, e é ao povo que, seja quem forem os eleitos, as contas terão de ser prestadas.
Contas certas, honestas.
Abril é exigir, protestar, gritar, reunir, partilhar, solidarizar, denunciar, lutar, apear, expulsar.
Abril é respirar, pulsar, amar, viver, eu, tu, você, aquele, aquela, dar as mãos, levantar a cabeça, cerrar os dentes, soltar a raiva e dizer não, quando Abril querem apagar.
Abril é ajudar a levantar e a caminhar os fracos, oprimidos, esquecidos, marginalizados, desprezados, e caminhar com eles e por eles.
Abril é dignidade, é felicidade, é direito a sermos humanos e não números.
Abril não é deixar correr os dias, é viver, todos os dias, como o primeiro ou o último.
"Senhor, falta cumprir-se Portugal!", escrevia Pessoa.
E falta cumprir Abril.
O que é da nossa responsabilidade e está nas nossas mãos.
Estendamos as mãos a Abril, sempre que Abril nos olhe de frente.
("Eu vim de longe" - Voz, música e letra de José Mário Branco)
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
Desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
E sempre a verdade vença,
Qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
E me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
("Queixa das Almas Jovens Censuradas" - Música e voz de José Mário Branco, poema de Natália Correia)
Port-Wine (Joaquim Namorado)
ODouro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.
O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos do cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos..
Em Londres, os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.
O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
liberta-te, meu povo! - ou morre.
("Ouvindo Beethoven" - Música e Voz de Manuel Freire, poema de José Saramago)
Poemarma (Manuel Alegre)
Que o poema tenha rodas motores alavancas
Que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai dom caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.
Que o poema cante no cimo das chaminés
Que se levante e faça o pino em cada praça.
Que diga quem eu sou e quem tu és
Que não seja só mais um que passa.
Que o poema esprema a gema do seu tema
E que seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
Para escapar a quem lhe segue os passos.
Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
Que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.
Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
Que o poema cante em todas as idades
(quem lindo!) no presente e no futuro o verbo amar. Que o poema seja microfone e fale
Uma noite destas de repente às três e tal Para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.
Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas.
Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos.
Que o poema vista de domingo cada dia
E atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
Ao menos uma vez em cada ano.
Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.
Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti.
E aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.
(1º. Comunicado do MFA - 4H 25 de 25 de Abril)
Abril de Abril (Manuel Alegre)
Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
("Tanto Mar" - Voz, música e poema de Chico Buarque)
25 de Abril (Sophia de Mello Breyner Andresen)
Esta é a madrugada que
eu esperava
O dia inicial inteiro e
limpo
Onde emergimos da noite
e do silêncio
E livres habitamos a
substância do tempo
("Coro da Primavera" - Voz, música e poema de José Afonso)
A denominada "First Lady Song", ofereceu-nos, como poucas cantoras, uma única pureza de tonalidade, uma arrepiante habilidade de improviso, dicção, fraseado e entoação impecáveis.
De acordo com alguns críticos e músicos, terá sido a maior cantora do século XX, nos seus 59 anos de carreira. durante os quais, além do mais, arrebatou 14 prémios Grammy.
("Summertime" - de George Gershwin (música) e Ira Gershwin (letra)
A sua carreira iniciou-se, com 17 anos, no mítico Apollo Theater, no Harlem.
Cedo atraiu a atenção de músicos de prestígio tendo, em 1935, feito parte integrante da Big Band de Chick Webb. Com a morte deste, em 1939, dá o seu nome à banda, algo raríssimo na época.
Em 1942, inicia a sua carreira a solo e, posteriormente, descobre o bebop e colabora com a orquestra do genial Dizzy Gillespie.
(Ella no Festival de Montreux de 1979- "Flying Home", música de Benny Goodman, Lionel Hampton e Eddie de Lange, letra de Sid Robin)
Em 1955 cria a sua própria editora, a Verve Records. Anos de ouro, durante os quais constrói uma verdadeira enciclopédia da Grande Música Americana, os chamados Songbooks de Ella Fitzgerald em que canta, de forma inultrapassável, criadores como George Gershwin, Irving Berlin, Cole Porter, Duke Ellington, John Mercer, Jerome Kern, Rogers e Hart e, até, um tal de...Tom Jobim.
("Felicidade" - música de Tom Jobim, letra de Vinicius de Moraes)
Ella continuou a gravar e a cantar ao vivo (40 a 45 semanas por ano), indo a programas de televisão, umas breves aparições no cinema, até 1993, ano em que realiza o seu último espectáculo ao vivo.
Morreria a 15 de Junho de 1996 em Beverly Hills.
E continua no coração de todos os amantes de jazz e da Grande Música.
(Ella Fitzgerald e Louis Armstrong - "Cheek to Cheek", de Irving Berlin)