Completaram-se ontem 3 anos sobre a morte de José Saramago.
Deixou-nos uma obra única, cheia de vida e de histórias dentro da História.
Deixou-nos uma Língua Portuguesa ( e não "acordês") muito mais rica, versátil e burilada, ele que foi um paciente artífice desse nosso bem supremo.
Deixou-nos, e está sempre presente, fazendo parte intríseca do ADN da nossa cultura, cultura que é a argamassa de um país, de um povo, sem a qual não há passado, nem futuro.
E que nos levanta do chão!
(Nota: o texto que se segue é uma pequena homenagem a José Saramago)
"LEVANTADOS DO CHÃO
* A José Saramago
Quando
o teu avô pressentiu a companhia gelada da senhora de negro e gadanha nas mãos,
saíu para fora de casa, andou pelo caminho e abraçou-se a uma árvore. Não sabia
ler nem escrever, diziam. Mas sabia ler a pulsão fervilhante da vida da terra,
da natureza, da força telúrica e seminal que emana de todos os seres vivos, dos
animais, das plantas, e também das rochas, areias, águas, ares que nos rodeiam
e nos enchem, pulsando ininterruptamente.
Não sabia escrever, mas
nesse momento escreveu uma das mais belas odes ao sentido da existência, a uma
devoção ao natural, que não necessita de grandes interpretações teológicas
sobre questões de fé, ou de intermediários entre o humano e o que determina a
vida de todos os dias.
Haverá algo que nos
transmita tão bem a força da criação melhor do que uma árvore, que começa numa
pequena e buliçosa semente, e se transforma num bom gigante de múltiplos braços abertos para nos acolher.
Por estas e por outras,
e por outros exemplos que todos os dias nos são dados por pessoas ditas
“analfabetas”, as forças naturais influenciam-nos mais do que nós, os ditos
“cultos”, podemos adivinhar. Leiam, por exemplo, “A um deus desconhecido” de
John Steinbeck, se estiveres de acordo José.
E existe algum assunto
que seja tabu ou não possa ser posto em causa? Só se forem aqueles que, por
falta de argumentos, se receie que possam ser alvo de discussão, da qual,
segundo os antigos, e sábios, nascia a luz.
A luz que traria a
cultura, o conhecimento, a todos nós. Fruto proibido ? Talvez o seja, para os
que ainda crêem que o homem não está preparado para todas as revelações. Como
são cegos, deixando-se arrebanhar por outros cegos, como melhor se leria no
“Ensaio sobre a cegueira”.
Mal sabias, José, vindo
da Azinhaga do Ribatejo, serralheiro mecânico como primeira profissão, as
andanças em que, felizmente para todos nós, te iriam meter.
O curioso é que, ao
mexeres em assuntos em princípio tão delicados como a religião ou a morte,
assuntos que muitos não querem ver tocados, porque, sabemo-lo, é chato, para esses muitos, é que nada é
absoluto, e o que ressalta, pelo menos para o escriba agora de serviço, é que a
humanização dos actores principais das obras que a tua imaginação,
sensibilidade e cultura nos iam oferecendo salta para a ribalta do leitor.
Então a negra, a cruel,
a tirânica morte, afinal apaixona-se como qualquer mortal, despindo os trajes
executórios com que a cobriam, e vestindo as roupagens de uma bela e sensual
mulher, revelando, também, as fragilidades que qualquer simples mortal assume
no dia a dia, de acordo com o teu livro “As intermitências da morte”, e onde as
fronteiras entre o mal absoluto (a morte) e o bem, ou felicidade, (o corpo da bela mulher) se confundem se
interpenetram. Afinal, onde está fronteira entre o mal e o bem? Existirá? E o
que parece horrível sê-lo-á tanto, como o que parece belo, também o será assim
tão maravilhoso? Ou dependerá, apenas,
dos olhos e sentidos de quem vê, toca e sente? Ou de como o nosso cérebro
descodifica as mensagens que lhe chegam de todos os lados ? Isto é, nada existe
de absoluto, e tudo é relativo (o que nos leva, José, e se estiveres de acordo,
a esse perturbante filme de Neil Jordan “Entrevista com o vampiro”, e ao mito
de a bela e o monstro).